Publicado por: Amanda Paz | 23 de janeiro de 2010

Pequenos colecionadores

Por que as crianças dão tanta importância a objetos que, para nós – adultos – não têm o menor valor? Conheço algumas que guardam lascas de lápis, pedacinhos de fitas coloridas, embalagens de balas, tampinhas de refrigerante, dentre outras coisas igualmente “inúteis”.

 

Sônia Kramer¹ – em seu artigo A infância e sua singularidade² – escreveu que “as crianças, em sua tentativa de descobrir e conhecer o mundo, atuam sobre os objetos e os libertam de sua obrigação de ser úteis”.

 

Ao refletir sobre isso, volto aos meus tempos de criança e me descubro também uma pequena colecionadora. Primeiro foram as tampinhas de refrigerante. Aquelas que vinham nas garrafas de vidro. Havia uma infinidade delas, que eu guardava cuidadosamente em uma caixa de sapatos. Em seguida, vieram os papéis de bombons Garoto. Mais tarde, descobri que, juntando duas tampinhas e enrolando-as nos papéis, obtinha bombons de mentirinha, com os quais enganava meus irmãos. Então, comecei a fabricar os bombons e guardá-los na caixa. Adorava contá-los, arrumá-los, admirá-los.

 

Houve também a fase das figurinhas de Ping-Pong. Ah! mas não tinha graça comprar os chicletes para obtê-las. Não. O legal mesmo era encontrá-las na rua, no chão, no pátio da escola. Avistar aquele papelzinho enrolado, num canto qualquer, era como encontrar um tesouro. Era sorte tamanha que não conseguíamos acreditar como alguém poderia desprezá-lo.

Figurinhas Ping Pong

 

As tais figurinhas eram uma febre entre nós. Especialmente as da série Ploc Monster. Cada monstro tinha um nome. E quando, por acaso, o nome coincidia com o de alguém da turma, era uma gozação só. Vinham numeradas. As repetidas eram trocadas ou – o que era melhor: apostadas no bafo. Eu tinha uma porção delas. E perder uma sequer era como levar um desfalque. Golpe duríssimo.

 

Conforme eu ia crescendo, as coleções iam mudando: borrachas perfumadas, lápis importados, adesivos da série Amar é…, gibis e, finalmente, a minha última coleção: os papéis de carta.

Coleção de borrachas

Não havia menina que eu conhecesse na época, que não possuía uma coleção de papéis de carta. Comecei a minha com uma série de papéis dos Ursinhos Carinhosos. Daí para a pasta lotada foi um pulo. Passava horas arrumando-a, trocando os papéis de lugar, encontrando espaço para outros que chegavam. Uma vez por semana, eu a levava à escola para exibi-la e comparar meus papéis com os das outras meninas. Se havia uma boa proposta e muito interesse, sempre rolava uma troca. Então, era chegar em casa e arrumar tudo outra vez.

Papéis de carta da Hello Kitty

A paixão pelos papéis de carta perdurou pelo que me restou da infância e continuou durante um período da adolescência. Certo dia, entretida por um assunto qualquer, voltei da escola sem a pasta. Quando dei por falta dela era tarde demais. Perdi meu tesouro. Chorei, esperneei, xinguei durante alguns dias e, mesmo meses depois, ainda sentia uma dorzinha lá no fundo do peito quando me lembrava do tempo que dispensei juntando cada item daquela coleção. Por fim, consolei-me. Não dizem que o tempo cura tudo?

Calvin

Já crescida, não juntei mais nada. Livros contam? Acho que não. O sentido da coleção é justamente o da libertação – repetindo Kramer – da obrigação de utilidade das coisas. Sendo assim, não posso dizer que coleciono livros, já que não os liberto de sua vocação primeira. Mas, quem sabe se, a partir de agora, não me animo? Quem sabe não reaprendo a dar novo significado às coisas como fazem as crianças? Quem sabe não acabo aprendendo com elas algo novo… de novo?

¹ Sonia Kramer é professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, onde coordena o curso de Especialização em Educação Infantil.

² O texto integral pode ser encontrado em: BEAUCHAMP J.; PAGEL S.; NASCIMENTO A. (Org.). Ensino fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos de idade. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007.

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Responses

  1. Parabéns pelo blog!
    Passa lá no meu blog, vota na enquete que deixei lá e comenta. Se gostar, clica nos anúncios…pra dar uma ajuda.

    http://www.papodeinformatica.blogspot.com

  2. Mana, parabéns pelo blog!! suas escritas estão cada vez melhor. Você como sempre, escrevendo com tamanha simplicidade as lembranças de nossa tenra infância!
    Ainda me lembro da sua coleção de borrachas perfumadas e papéis de carta que você cuidava com todo carinho. Eu também comecei a colecionar estes papéis, mas no fim, como não tinha muita paciência acabava escrevendo neles cartinhas de amor!!…akakk. Hello kit era o top de linha lembra? E acho que ela ainda reina até hoje..srsrrs.

    abraços e continue nos proporcionando através de suas escritas lembranças inesquecíveis.

  3. oi, sou Ricarda Revalino, me encontre no facebook e veja minha coleção de borrachas cheirosas. Comecei a colecionar quando tinha 7 anos de idade. Boa noite!

    • Não consegui localizar seu perfil porque há 6 Ricardos Rivelino no FB. Poderia descrever a imagem que está em seu perfil? Grata

  4. Olá!
    Sou colecionadora de borrachinhas. Gostaria de entrar em contato com você.
    Obrigada

  5. Ola! Tenho uma coleçao de borrachas, gostaria de falar consigo, pode-me mandar um e-mail?


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