Publicado por: Amanda Paz | 9 de setembro de 2011

A leitura institucionalizada dos gibis e a leitura espontânea de outrora

Por: Tônia Amanda Paz dos Santos (a autora permite cópia, desde que citada a fonte e/ou indicado um link para este blog)

Gibis estimulam a turma a tomar gosto pela leitura. Esse gênero literário colorido, ilustrado e cheio de recursos gráficos incentiva os pequenos de pré-escola a criar o hábito de ler (…) As imagens aparecem associadas a textos coloquiais e permitem que a criança antecipe o enredo e atribua sentido à história, mesmo sem saber ler. Para Beatriz Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, em São Paulo, as onomatopéias, como “ploft” e “grrr”, também são importantes para facilitar a compreesão de diversas situações e emoções.É o que diz uma reportagem publicada na  Nova Escola (Edição 208).

É curioso como as coisas mudam. Chega a ser engraçado. Quando eu era criança, levar gibi (que, na época, eu chamava era de revistinha) para a escola era coisa proibida. Não podia. Mas, a gente levava. Eu, pelo menos, levei. E como não? minha mãe, que também era professora, era dona de uma banca de revistas que ficava na frente da nossa casa. Imaginem, uma banca de revista em plena floresta amazônica…porque era onde eu morava. Em uma vila erguida praticamente em meio à floresta, em Carajás, no Sul do Pará. E, nessa época, os gibis me fascinavam e me atraíam demais.

E como dar conta de todos eles senão aproveitando qualquer circunstância ou lugar para mergulhar em todas aquelas aventuras deliciosas? eu lia em casa, lia na banca, lia no banheiro e em sala de aula. Sim. Eu fui uma inveterada infratora. Escondia os danados como podia. Debaixo da carteira ou enfiados em  um livro de História (cheio de histórias para boi dormir). E a possibilidade de ser pega em flagrante só aumentava a vontade de infringir a regra. Ai daquele que fosse pego. Além de ficar sem o gibi, corria sério risco de ser convidado a um tête-à-tête com a diretora e ainda levava para casa um bilhetinho de advertência para os pais assinarem. Eu nunca fui pega.

Os meus preferidos sempre foram os almanaques da Disney, especialmente os da série Natal Disney de Ouro e Pateta faz História. Mas havia também os da Bolota, Luluzinha, Recruta Zero, Pantera cor-de-rosa, A turma do Lambe-Lambe, O palhacinho Alegria, Ursinhos Carinhosos, Misty, Turma do Pererê, os da Marvel e os da Turma da Mônica, é claro. Havia também uma série de gibis da Moranguinho que eu adorava. Cada um desses gibis continha três histórias: uma da Turma da Moranguinho, é claro; uma do Fido – o cão falante; e uma do Asterói (um garoto astronauta, que possuía uma amiga robô, e estava sempre viajando por planetas malucos em busca de seus pais).

Gibis: Misty/ Recruta Zero/ Bolota/ A Pantera Cor-de-Rosa

Moranguinho (Fido e Asteroi)/ Os Ursinhos Carinhosos

Aventuras Marvel (Conan, o Bárbaro)/ Almanaque Disney/ Luluzinha

A turma do Lambe-Lambe (criação de Daniel Azulay)

Sonja, a Guerreira

Alegria (espécie de revista Recreio dos anos 80)

Eu não via a hora de os pacotes com as revistas chegarem lá em casa. Eu as guardava em um cantinho especial da minha estante. Junto com com meus amados livros de contos. Não fazia nenhuma distinção entre um e outro – Livros e Gibis. Continuei colecionando-os por muito tempo ainda. Mas, depois de tantas mudanças (uma hora estou aqui, outra ali), eles acabaram sendo extraviados. Outro dia, bateu uma saudade e eu comprei, no Mercado Livre, uma edição muito especial da Série Natal Disney de Ouro – a nº 7, que traz A lenda da Espada de Gelo (uma espécie de homenagem à história antológica de Tolkien “O Senhor dos Anéis”).

Natal Disney de Ouro (A Lenda da Espada de Gelo)

Será que  as crianças mudaram tanto que não têm mais interesse por coisas que não são criadas em pixels ou 3D ? eu acho que não. Afinal, elas têm uma capacidade incrível de aceitação. Eu acho que nós adultos é que,  na ânsia de querermos nossas crianças “antenadas” com as novas tecnologias,  nos squecemos de que não há nada de errado com as velhas e  boas coisas do passado. Acabamos deixando de oferecer a elas outras possibilidades. Deixamos isso a encargo da escola.

Assim, os gibis, os quadrinhos, as revistinhas – antes artigos não muito bem vistos nos ambientes escolares – ganharam status de ferramenta educacional. Mas, ao serem confinados nos acervos e gibitecas das salas de aula, ao serem transformados em leitura institucionalizada, perderam muito daquela capacidade de atrair as crianças como antes.

A leitura deve ser, antes, um ato de prazer. Nunca uma imposição.

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Responses

  1. Olá Tônia !
    Você tocou num ponto interessante. Será que o grande interesse e procura dos gibis no passado era pelo fato de ser “proibido”? Porque lembro-me bem do meu fanatismo pelas tais revistinhas, até apanhava da minha tia para não lê-las devido a tal fixação, principalmente por superman, homem de ferro, hulk, capitão marvel sem citar outros. Entretanto foram essas revistas que me introduziu e me deu gosto por uma boa leitura.Hoje sou pai de família,tenho uma filha de16 anos, e quando a mesma era criança sempre tentei passar para ela o gosto pela leitura dos gibis e nunca surtiu o efeito desejado. Talvez este fator proibido sinônimo de rebeldia nos jovens esteja ausente nas revistas e este seja um dos pontos para a falta de interesse delas.

    Parábens pelo post.

    Beijos!

    • Olá meu amigo Renilson,

      Você tocou em um aspecto interessante, sobre o qual não me aprofundei em meu texto. E acredito que você tem muita razão em suas conclusões.

      As crianças constrõem um mundinho particular, só delas, onde a fantasia impera. E, como os adultos têm o incrível poder de destruir as fantasias das crianças, elas criam uma espécie de postura defensiva, isto é, procurando se rebelar contra eles e contra o que tem relações com eles – os adultos.

      E, a partir do momento que os adultos dizem que algo é permitido e até decidem compartilhar disso com elas, é para elas como se aquilo tivesse perdido toda a graça. Pelo menos, ao trazer à tona minhas memórias infantis, é como eu consigo explicar a coisa.

      Claro que há adultos que conseguem penetrar no mundinho delas, sem quebrar-lhe o encanto. E eu me orgulho muito de dizer que sempre me senti melhor entre elas do que entre outros adultos….meio como Willy Wonka….rs.

      Um abraço e muito obrigada por disponibilizar um pouquinho do seu tempo para compartilhar conosco suas experiências e reflexões sobre o assunto.

  2. Muito legal! Lembro de alguns, mas nao é da minha época kk

  3. Saudações!
    Amiga AMANDA PAZ:
    Hammmm então você também era uma infratora desse encantado mundo dos Gibis. Eu também minha amiga. Parte do dinheiro que o meu pai me dava eu comprava tudo em revistas. A minha coleção era mágica. Eu tinha um pouco de tudo e depois, eu ainda fazia a troza com os demais amigos.
    Eu fico impressionado com o zelo e atenção que você dispensa a cada publicação. Você escolhe a dedo cada imagem. E isso merece aplausos.
    Parabéns por mais um excelente Post!
    Abraços,
    LISON.

    • Boa noite meu bom amigo!

      Que bom poder te proporcionar esses momentos de recordação.

      Olha, eu adoro escrever no meu Blog “Quando eu tinha 8 anos”. Cada post é uma viagem ao passado. Além do que, dessa forma, eu mantenho minhas memórias da infância sempre vivas.

      Faz tempo que eu queria escrever sobre esse tema. Os gibis contribuiram demais para o desenvolvimento do meu gosto pela leitura. E, depois, eu nunca encontrei ninguém da minha geração que não os curtisse também.

      Quando eu morava em São Paulo, adorava percorrer os sebos atrás de uma edição especial. Aqui onde moro é difícil, por isso tenho de recorrer ao Mercado Livre. Quanto ao zelo com os posts, acho que é o mínimo que eu posso fazer. Já que me propus a tornar públicos minhas memórias e impressões, que seja com o mínimo de qualidade, né?

      Mas seus posts também não ficam atrás, meu amigo. Não é à toa que são tão populares. Você tem o dom de transformar palavras em sentimentos. Isso não é para qualquer um não….um dia eu chego lá….rs.

      Um grande abraço, dessa sua admiradora.
      Amanda Paz

  4. Olá.
    Postagem divulgada no blog Teia.
    Até mais


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