Publicado por: Amanda Paz | 9 de setembro de 2011

Bullying, um termo novo para um comportamento antigo

O bullying é um  fenômeno tão antigo quanto a escola. Há várias teorias sobre a origem do termo, que  deriva da palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Apesar de não haver uma expressão equivalente, em português, o bullying é uma das formas de violência que mais vem ganhando espaço nos notíciários brasileiros. O que tem levado especialistas, educadores, pais e a sociedade – como um todo – a observar com um pouco mais de atenção o comportamento de crianças e adolescentes, no mundo inteiro.

De forma bem sintética, podemos entender o bullying como uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas,  dirigidas, de forma repetitiva, por um ou mais alunos, contra um ou mais colegas. Apesar de não ocorrer apenas no ambiente escolar, é lá que se percebem os primeiros sinais de um praticante de bullying. Eu me pergunto o que leva uma pessoa  a atingir o colega com repetidas humilhações ou depreciações e por mais que eu tente encontrar uma resposta, não consigo.

Foi duro passar pela pré-adolescência e parte da adolescência sofrendo esse tipo de opressão. Eu não compreendia que aquilo estava errado. Achava que eu devia me conformar com aquele tipo de assédio. Afinal, eu era mesmo uma menina magricela e desengonçada. Não havia nenhuma mentira no que os “colegas” da escola e do bairro me diziam. Doía, é bem verdade. E para evitar aquela dor, eu tinha vontade de não sair mais de casa. E, se eu saía, não era por desejo de enfrentar aquela situação, mas sim por obediência aos meus pais, que não faziam ideia da tortura que era, para mim, subir no coletivo dia após dia, em meio às piadas e xingamentos. E enfrentar a gozação que continuava na sala de aula e nos corredores do colégio.

Por diversas vezes, inconscientemente, eu dava sinais de que as coisas não iam bem. Perdi as contas das vezes em que minha mãe teve de ir me buscar na porta da escola porque eu não conseguia atravessar os portões. Eu sentia enjôos, tremores e uma sensação desesperadora, que eu não conseguia explicar. Algumas vezes minha mãe cedia e me levava para casa. Mas, na maioria das vezes, de forma ríspida, forçava com que eu entrasse.

A tortura durou da 6ª série do antigo ginásio até o 2º ano do antigo segundo grau. E, hoje, lembrando daquela época, eu reparo no quanto aquilo foi decisivo para que eu me transformasse, da menina extrovertida e cheia de alegria que eu era até os meus 11 anos, em uma pessoa acabrunhada e introspectiva. Meus melhores amigos passaram a ser os livros e eu, aos poucos, fui tomando certa aversão às outras pessoas.

Aceitar fazer novos amigos, o que  nunca havia sido um problema para mim antes, passou a ser algo que eu evitava e, até, desprezava. Durante anos tentei me esconder. E como eu não podia deixar de realizar as atividades rotineiras, eu me escondia atrás das roupas que eu usava. Se eu via um grupo de pessoas na rua, desviava o caminho. Isolava-me. Até hoje eu não consigo entender como meus pais não percebiam tamanha mudança. Pelo contrário. Minha mãe só piorava os meus tormentos, com seu rigor e incompreensão.

Durante tanto tempo eu evitei encarar o espelho, que não percebi que havia crescido, que havia me transformado. A imagem de patinho feio estava gravada à ferro e fogo dentro de mim. Era assim que eu me via. Um dia, durante uma viagem de férias em que passei duas semanas na casa dos meus avós, aceitei ir à praia com minha irmã (que eu não via há mais de dez anos). Como era uma praia deserta, achei que não haveria problemas. Minha irmã me emprestou um biquíni e uma roupa adequada para o passeio, já que meu guarda-roupas se limitavam, basicamente a calças jeans e camisetas. Sair à rua vestindo aquelas roupas que mostravam tanto o meu corpo (que eu achava que odiava) foi um desafio que não pensei que fosse conseguir superar. Mas, consegui. E me diverti. E lembrei como era boa aquela sensação de fazer as coisas de que eu gostava.

De volta da viagem, eu decidi que precisava parar de me esconder e aproveitar mais a vida. Lembro-me perfeitamente do dia em que, pela primeira vez, depois de anos, entrei em uma loja e comprei um short bem curto (eu precisava me testar para valer). Na manhã seguinte eu deveria  prestar vestibular no centro da cidade. Decidi que seria a minha prova de fogo. Como eu não sabia se conseguiria passar por ela, não contei a ninguém o que faria. Vesti um macacão jeans e meus All Stars surrados, disse até logo a minha irmã mais velha (com que eu morava em São Paulo) e tomei o ônibus para o centro. Sentei-me no último banco. O ônibus estava vazio. No meio do percurso, tirei o macacão e o guardei na mochila. Por baixo dele eu vestia minha nova pele. Foi, de certa forma, a minha metamorfose. Desci no terminal da Barra Funda para uma nova vida. Livre das amarras e complexos do passado. Livre como minhas pernas de fora dos shorts de tactel que eu vestia agora. Naquele tarde, quem voltou para casa  foi uma pessoa nova em folha, mas que, de vez em quando, ainda precisa lutar contra o desejo inconsciente de evitar o contato com outras pessoas.

Hoje, aos 34 anos e me aceitando como eu sou. Abraços a todos os que leram até aqui.

“Preocupe-se mais com a sua consciência do que com sua reputação. Porqe sua consciência é o que você é, e a sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, é problema deles”. (Bob Marley)

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Responses

  1. Saudações!
    Amiga AMANDA PAZ:
    O seu relato é inquiridor e uma verdadeira página de aprendizado abordando um tema tão complexo e delicado. A minha esposa também é uma vítima dos “olhos te touro com raiva”, o Bullying. Segundo ela o problema partiu de um professor quando passava uma matéria, ai tudo começou. Ainda bem que ela conseguiu concluir o ensino médio, mas, fazer um vestibular nem pensar. Tem feito análises, mas ainda não superou.
    Fiquei muito feliz em saber que você conseguiu superar-se e se encontra muito melhor.
    Parabéns por mais uma excelente matéria.
    Abraços,
    LISON.

    • Boa noite meu bom amigo!

      Que bom poder te proporcionar esses momentos de recordação.

      Olha, eu adoro escrever no meu Blog “Quando eu tinha 8 anos”. Cada post é uma viagem ao passado. Além do que, dessa forma, eu mantenho minhas memórias da infância sempre vivas.

      Faz tempo que eu queria escrever sobre esse tema. Os gibis contribuiram demais para o desenvolvimento do meu gosto pela leitura. E, depois, eu nunca encontrei ninguém da minha geração que não os curtisse também.

      Quando eu morava em São Paulo, adorava percorrer os sebos atrás de uma edição especial. Aqui onde moro é difícil, por isso tenho de recorrer ao Mercado Livre. Quanto ao zelo com os posts, acho que é o mínimo que eu posso fazer. Já que me propus a tornar públicos minhas memórias e impressões, que seja com o mínimo de qualidade, né?

      Mas seus posts também não ficam atrás, meu amigo. Não é à toa que são tão populares. Você tem o dom de transformar palavras em sentimentos. Isso não é para qualquer um não….um dia eu chego lá….rs.

      Um grande abraço, dessa sua admiradora.
      Amanda Paz

  2. Amanda, perfeito o post. Mas eu acredito que todo mundo em algum momento da infância/adolescência tenha sofrido com o bullyind, a questão é que uns sofrem mais ataques e outros em menor proporção.
    É como sempre costumo pensar, nada como um dia após o outro…a gente precisa sempre de força para enfrentar nossos medos e vencê-los.
    E tem mais, além da mulher bonita que vc sempre foi, ainda é muito inteligente. Muito diferente de suas ex-colegas, que não se tornaram absolutamente nada e sem contar no visual atual delas..kkkkk o orkut que o diga!!!kkkk
    bjos se ame a cada dia.

    • O problema é que esse tipo de coisa acontece normalmente em uma fase em que não sabemos como nos defender psicologicamente. É cruel. Acabamos acreditando no que dizem e nós e aceitando essa imagem como verdadeira. Aí, fica muito difícil nos desvencilharmos dela depois. É um processo doloroso.

  3. Olá, visito pela primeira vez seu blog e seu relato é emocionante. Acho que cada pessoa pode se ver um pouco aqui, para falar a verdade, quem nunca sofreu isso na vida. Uns mais outros menos, nem que fosse por um minuto. Mas acabamos deixando se isso não é uma coisa constante em nossa vida.Que bom que você conseguiu superar, apesar de ser sensível ainda a ponto de lembrar. E a fase que isso acontece, nós nem sabemos que nome dar, achamos que é coisa de adolescente bobo, que não tem o que fazer.
    Mas tem nome e causa traumas profundos, até mesmo para o resto da vida. Parabéns pela postagem e acredito que está ajudando assim outras pessoas que passam pelo mesmo problema.
    Forte abraço!!!!!

    • Olá minha querida Carla,

      Realmente esse trauma deixou cicatrizes profundas e, se decidi escrever sobre o assunto é por querer exorcizar, de vez, antigos demônios. Como você disse, além de tudo, posso ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo problema. Quando a gente encontra pessoas que conseguiram superar conflitos como os que lutamos para superar, tudo fica um pouco mais fácil mesmo. Eu conheço pessoas que ainda sofrem de baixa-estima por causa desses traumas de infância.

      Obrigada pela visita e pelo comentário.Um grande abraço!

  4. Olá minha Menina;

    Indubitavelmente o advento do bullying não é uma novidade, no entanto, o entendimento como fator a ser estudado de forma isolada e específica se deu seriamente a pouco mais de dez anos, principalmente nos aspectos psicológico e social.

    Infelizmente você teve que passar por isso sem compreensão e sem companhia daqueles que deveriam lhe proteger, mas entenda que, além da inexistência de alertas sobre isso na época, ainda contamos com a desinformação do indivíduo coligada a preceitos antigos de comportamento e responsabilidade.

    A somatória disso tudo criava pais e responsáveis que, se hoje nos parecem omissos, na época nada mais faziam do que lhes era permitido fazer. Qualquer importância maior dada ao assunto seria considerado mimo e exagero.

    Cito como exemplo a depressão, que até pouco tempo atrás era considerada “frescura” e demandou muito tempo e esforço para que nós conseguíssemos demonstrar que era sim um estado patológico de graves consequências.

    As cicatrizes permanecem (e doem, eu sei), mas nossa força interior DEVE predominar e fazer com que entendamos que tal evento nunca deve ser esquecido, mas sim, digerido e usado a nosso favor em nossa formação psíquica, emocional e espiritual, assim como você fez, Flor!

    Parabéns por sua consciência e que sua história fique como um alerta para todos de que os sinais existem e são evidentes, basta que interajamos com nossos filhos ou dependentes de forma a conhecê-los como pessoas que são, não apenas como familiares ou afins.

    Um beijo em seu coração e muita luz à todos!

    • Olá meu amigo,

      Lendo seu comentário eu encontro muitas verdades. O que soa como omissão por parte dos meus pais, hoje, pode ter sido fruto de um paradigma comportamental que, naquela época, era a regra e não a exceção.

      No entanto, mesmo hoje, com tanta informação sendo veiculada sobre o assunto, a falta de diálogo entre pais e filhos e entre estes e a comunidade escolar continua fazendo com que esse tipo de situação resulte, muitas vezes, em casos extremos de violência, auto-punição e baixa-estima por parte dos que sofrem esse tipo de abuso.

      Recentemente, a filha de uma amiga faleceu, aos 15 anos, depois de uma overdose de remédios para emagrecer. A mãe não sabia o que se passava com a filha na escola. Amigas da menina contaram que ela já estava sofrendo com bullying há muito tempo. Mas, muitas vezes, a pessoa se sente tão envergonhada que não tem coragem de falar sobre isso nem com a própria família.

      O pior de tudo é que esse tipo de coisa acontece, na maioria das vezes, em uma fase em que a criança ou adolescente não sabe se defender ou reagir de forma emocionalmente positiva, uma vez que ela ainda está construindo sua própria imagem.

      Felizmente eu consegui, depois de muito tempo, reagir contra o complexo que criei. Mas, tenho amigos adultos que ainda sofrem até hoje de baixa-estima devido aos traumas da infância. É cruel.

      Obrigada pela sua incrível participação e compreensão. Suas reflexões certamente serão de grande ajuda para outros que possam estar tentando exorcizar alguns demônios ou por quem ainda está passando por este problema. Eu acho que quando a gente toma conhecimento de que outras pessoas passaram por isso e deram a volta por cima, encontra forças para lutar e reagir.

      Um grande abraço e uma ótima semana.

  5. o mais difícil é acetar-se como se é.aceitar nossa natureza.creio eu que todos passamos por essa terrível experiencia.posso dizer sem medo,o pior é a raiva.da minha parte pelo menos,até hj é difícil para mim lidar com a raiva.detalhe,trabalho com publico,o que dificulta ainda mais.mas vivamos um dia de cada vez.e tentemos esquecer o passado,para que possamos edificar um futuro melhor.

    lembrem-se,não aceitem o bulyng.denunciem.encham-se de coragem,vamos acabar com essa moléstia da sociedade

    • Olá meu amigo. É muito difícil mesmo reagir. Especialmente quando nos sentimos sozinhos e desamparados. Na minha época, esse comportamento era tido como normal pelos professores e até mesmo pelos pais. Coisa de criança. Mas hoje, tá cheio de adultos neuróticos e deprimidos porque ainda não conseguiram se desvencilhar dos traumas causados pelo bullying. Fico feliz que a sociedade está tomando consciência deste mal. Quem sabe algum dia as pessoas aprendam a aceitar as diferenças e deixar que os outros vivam em paz, não é?

      Um grande abraço e obrigada por participar e compartilhar conosco as suas experiências e reflexões sobre o assunto.

  6. Minha amiga Amanda, você é muito ESPECIAL. Compartilhar sua experiência e superação, é uma forma corajosa de revelar o quanto pessoas, muitas vezes “tão próximas”, não enxergam além e estão tão distante de nós. Esse comportamento é realmente antigo e ler o seu relato me fez lembvrar de muitas histórias que vivi. Seu aprendizado é motivador. Sei que dói e quanto sei. Você encontrou nos livros amigos amáveis e a forma que assimila conhecimento se revela na sua criatividade ímpar. A arte dos relacionamentos é um desafio constante. Mas, o principal passo é estar bem consigo mesmo. Continue dando crédito a si mesma porque você é um ser único, exclusivo e diferencial. O universo nos brindou com a diversidade, pena, é que muitos não aprenderam a lidar e respeitar a beleza das diferenças

  7. Bruna, você não sabe o quanto eu estou feliz em ler seu depoimento. É com uma pontinha de orgulho (afinal, vi aquela menininha de outros dias se transformar nesta moça inteligente e sensível, tal qual sua mãe, a quem tanto admiro) e com muito carinho que recebo suas palavras.
    Beijo e obrigada por sua presença ensolarada aqui no blog. Você é como uma planta que além de agradável aspecto ainda sacia nossa fome com seus saborosos frutos.
    Amanda Paz


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