Publicado por: Amanda Paz | 14 de setembro de 2011

Brincadeira de criança…Como é bom!

Por: Tônia Amanda Paz dos Santos (a autora permite cópia, desde que citada a fonte ou indicado um link para este blog)

A brincadeira sempre foi uma prática incentivada na maioria das sociedades contemporâneas.  Entretanto, o ato de brincar, durante muito tempo, esteve limitado aos momentos de lazer e de tempo livre das crianças. Hoje, estudos sobre o desenvolvimento humano vêm apontando que a brincadeira está ganhando cada vez mais espaço, não apenas no âmbito familiar, mas nos ambientes educacionais. O que antes estava limitado ao intervalo do recreio, hoje já pode ser verificado (mesmo que, às vezes, de forma equivocada) em sala de aula.

Através dos jogos dramáticos, por exemplo, muito comuns nas brincadeiras infantis, a criança explora o meio em que vive, experimentando e internalizando regras e papéis típicos da vida em sociedade. Além do que, ao brincar, elas acabam estimulando o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como atenção, memória, controle da conduta e  experimentando a interação entre os pares, a resolução de conflitos, abrindo caminho para a formação de um cidadão crítico e reflexivo.

A criança, ao brincar, coloca o mundo de cabeça para baixo, subverte papéis, cria e constrói. Segundo Benjamin (2002), ela faz construções sofisticadas da realidade e desenvolve seu potencial criativo, transforma a função dos objetos para atender seus desejos. Assim, um pedaço de madeira pode virar um cavalo; com areia, ela faz bolos, doces para sua festa de aniversário imaginária; e, ainda, cadeiras se transformam em trem, em que ela tem a função de conduto, imitando o adulto.

Pinturas da série "Brincadeiras de Criança", de Ivan Cruz

Eu me lembro perfeitamente de como o quintal da casa dos meus avós (para onde eu ia com meus irmãos todos os anos, durante as férias) parecia enorme quando eu era criança. Ali eu vivi as mais incríveis aventuras da minha infância. Os pés de goiaba, manga e graviola tornavam-se brinquedos de um grande parque-de-diversões. O carrinho-de-mão do meu avô virava táxi, trem, caminhão, avião, ônibus, carro de corrida – dependendo do dia e da vontade. A boneca era filha, aluna, amiga, inimiga e, até, eu mesma. O irmão virava motorista, piloto, bandido, polícia, cowboy. Folhas e flores viravam pratos sofisticados nas panelinhas de plástico. As galinhas no terreiro eram dinossauros perigosíssimos, dos quais tínhamos de fugir ou os quais tínhamos de caçar. As redes balançando “a todo vapor”  eram foguetes que nos levavam a planetas inimagináveis.

A imaginação e a capacidade de  improviso compensavam a falta de brinquedos. Éramos muitos filhos e o dinheiro não chegava para supérfluos. Mas, não me lembro de reclamarmos. Claro que enlouquecíamos com as propagandas na TV, mas tínhamos a rua, o clube, o campinho, os bosques, os riachos e igarapés, os pés de árvore, as cercas e quintais, as caixas de papelão, latas de goiabada e pedaços de madeira, que podiam ser transformados no que quiséssemos. Logo esquecíamos os imperativos comerciais.

pintura "Puxando Lata III", de Ivan Cruz

Pintura: "Represa e barquinho de papel", de Ivan Cruz

Quando cresci um pouquinho, os jogos de tabuleiro começaram a me atrair. No natal, a empresa em que meu pai trabalhava sempre distribuía ótimos brinquedos para os filhos dos seus funcionários. Era uma festa. O meu favorito era o Cara-a-Cara, da Estrela. Mas havia o Jogo da Vida, o Banco Imobiliário, o Imagem e Ação, Blefe de Mestre, Bolsa de Ações, Super Trunfo, Uno, Jogo da Operação, Detetive….Nos finais de semana, reuníamos os amigos e passávamos longas horas brincando com nossos jogos. Também brincávamos dos jogos tradicionais, é claro, como amarelinha, corda de pular, pipa, carrinho de rolimã, queimada, rouba-bandeira, peteca (a de penas e aquelas que, no sudeste, chamam de bolinhas de gude), elástico, slada mista,  e todas as versões da pira: pira-pega, pira-esconde, pira-trepa…

Pinturas da série “Brincadeiras de Criança”, de Ivan Cruz

Para mim, que tive uma infância tão rica e bem aproveitada, é triste imaginar que muitas crianças mundo afora são privadas do seu direito de brincar, estudar, de ter uma família que as ame e as proteja.  Mas, ainda mais difícil é compreender como, em alguns casos, pode partir das próprias crianças o desejo de correr com o tempo e entrar na adolescência tão precocemente. Será que a mídia tem tanta influência assim sobre elas hoje em dia? ou será que a vida moderna é que já não oferece tantos atrativos para essa idade?  

Infância perdida

Obs.: A maioria das imagens que ilustraram este post são de pinturas do artista plástico Ivan Cruz. Se você quiser conhecer mais sobre esse trabalho lindíssimo, acesse o site Brincadeiras de Criança (deixe o botão de som do seu micro ativado para ouvir a canção lindinha de abertura do site). Ou então, assista ao vídeo abaixo, diretamente do Youtube:

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Responses

  1. Que Post Fantástico!
    Amiga AMANDA PAZ:
    A sua matéria foi tão bem construída com uma narrativa impecável que nos prende do começo ao fim. É maravilhoso o seu registro de um mundo encantado que, como bem você escreveu muitas crianças não dispões desse recurso mágico e eu acrescento que você foi abençoada pelos anjos, pois, aproveitou muito a sua infância.
    Parabenizo-a pelas imagens ilustrativas. Todas em cadência com o texto em tela.
    Parabéns por mais um Post de qualidade e conteúdo!
    Abraços,
    LISON.

    • Olá meu bom amigo,

      Fico feliz pelo reconhecimento que você sempre faz a respeito das minhas postagens. Significa muito para mim e é um grande estímulo para que eu continue postando.

      Não sei se você já percebeu, mas eu sempre costumo unir a fala de especialistas sobre o assunto antes de escrever sobre minha própria vivência. As imagens são um complemento importante porque ilustram e ajudam com que visualizemos o que está escrito, dá um descanso para o leitor e deixa a leitura mais rica.

      Um grande abraço para você e obrigada pela consideração e participação de sempre.

  2. Adorei a reportagem é simplesmente fantástica, meu filho fez um trabalho e foi de grande compreenção, o texto é bem claro e as imagens maravilhosas, me fez voltar ao tempo de criança.
    Parabéns pelo trabalho.


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